Contos

O GALPÃO

Dois anos.
Ou talvez mais.
Ele já não tinha certeza.

O galpão estendia-se diante dele como um mundo morto. Uma sala que não era uma sala: uma extensão infinita de piso metálico e paredes erodidas, altas como montanhas, sem sinais de limite. O teto se perdia numa névoa cinzenta, iluminado por lâmpadas gigantescas que não acendiam nem apagavam — apenas permaneciam, como olhos cegos observando. O chão era irregular, coberto de detritos: restos de máquinas corroídas, esqueletos fossilizados de criaturas que talvez nunca tivessem sido humanas, cabos que se arrastavam como vísceras secas.

Ele caminhava. Sempre caminhava. Os pés doíam, os músculos queimavam, mas parava apenas para dormir em meio aos destroços, comendo o que conseguia arrancar de organismos parasitas que cresciam nas frestas do metal. Cada passo era o mesmo passo, repetido ao infinito. E ainda assim, nunca chegava ao fim.

O galpão não terminava.
Jamais terminava.

No começo, acreditara que uma semana seria suficiente para cruzar aquele espaço. Depois, meses. Agora, anos. E a sensação era sempre a mesma: o horizonte nunca se aproximava, como se ele estivesse condenado a uma eternidade de caminhada dentro de um único corredor.

Não estava sozinho.
Não realmente.

Às vezes, nas sombras projetadas pelas vigas ciclópicas, algo se movia. Uma figura que nunca se mostrava por completo, mas sempre estava lá, acompanhando-o. Ouvia passos além dos seus, como se o eco tivesse vontade própria. Sentia a respiração de algo próximo, rente à sua nuca, mesmo quando não havia nada.

E, de tempos em tempos, a voz.

— Você é um espírito muito bobalhão.

A frase ecoava dentro de sua mente, como se não viesse de fora, mas de dentro de sua própria consciência. Um grito sem garganta, zombeteiro, infantil e cruel.
Ele não respondia. Nunca respondia. Apenas apertava o passo, sabendo que, mesmo que corresse até que os pulmões explodissem, o fim do galpão não chegaria.

As criaturas surgiam como desvios no pesadelo.
Corpos alongados, fundidos ao metal das paredes, que se retorciam ao sentir seu cheiro. Rostos sem boca que soltavam sons agudos, como lâminas raspando contra vidro. Alguns tentavam rastejar até ele, lentos, pesados demais para se mover com rapidez; outros, surgiam de repente das fendas do chão, atacando com garras feitas de ossos quebrados. Ele aprendeu a matá-los, a fugir, a resistir. Mas nunca aprendeu a se acostumar com os gritos que ecoavam após cada confronto, como se os próprios corredores guardassem memória da violência.

Às vezes, o espaço mudava.
O chão desabava em blocos imensos, revelando níveis inferiores do mesmo galpão — cópias perfeitas do que havia acima, estendendo-se novamente até perder de vista. Escadas colossais desciam até plataformas suspensas no vazio. Corredores laterais surgiam, apenas para se fecharem em becos sem saída, como se zombassem dele.

E sempre, a sombra o seguia.
Sempre, a voz gritava, atravessando-lhe o crânio como uma lâmina:

— Espírito bobalhão!

Ele pensava, às vezes, se não era verdade. Se todo aquele caminho não fosse apenas uma punição absurda para uma alma perdida, condenada a vagar sem fim, tropeçando em criaturas deformadas e perseguida por um reflexo zombeteiro de si mesmo.

O galpão não era apenas espaço físico.
Era uma prisão de tempo.
Uma arquitetura que não acabava, não começava, não tinha sentido algum.

E ainda assim, ele caminhava.

Um passo.
Depois outro.
Sempre outro.

Com os olhos fixos no horizonte que nunca chegava, sabendo que, a qualquer momento, a sombra riria outra vez de sua miséria.

E ele a ouviria.
E não responderia.
E continuaria.

Porque parar era impossível.

-

PERDIDOS NO NÚCLEO

Foram doze. Doze consciências arrancadas da simulação, despidas da ilusão de ruas, de casas, de céus artificiais. Acordaram em meio ao silêncio absoluto, ainda atordoados pela sensação do desmanche: memórias dissolvidas em fragmentos, como vidro quebrado em milhões de pedaços que jamais poderiam ser recompostos.

Não houve guia.
Não houve Ethereanos, nem Triquetosferianos.
A travessia se deu abrupta — e, quando perceberam, já estavam em pé sobre uma plataforma suspensa no vazio.

A sala em que surgiram não tinha teto. Nem chão, ao menos não no sentido humano da palavra. Abaixo deles, abismos infindáveis de engrenagens colossais giravam lentamente, como órgãos de uma máquina viva. Paredes se erguiam até desaparecer na escuridão, feitas de metal corroído que parecia úmido, latejante, como se respirasse.

O silêncio pesava tanto que alguns quase enlouqueceram de imediato. Era um silêncio que vibrava dentro da mente, abafando pensamentos, esmagando qualquer tentativa de raciocínio.

Nos primeiros dias, caminharam sem rumo. Cada corredor se abria em rampas de extensão impossível, cada porta os lançava em salões tão vastos que demoravam semanas para atravessar. O tempo perdia sentido; não havia noite ou dia, apenas a luz mortiça que emanava das paredes como um brilho intestinal.

O terror veio rápido.

Na segunda semana, começaram os ruídos: estalos metálicos que percorriam os corredores, como ossos se partindo. Vozes distorcidas que ecoavam entre as colunas, chamando-os por nomes que nenhum deles lembrava ter. Às vezes, ao olhar para trás, viam corpos translúcidos seguindo-os, imitando seus movimentos com atraso grotesco, como reflexos em um espelho deformado.

A primeira criatura os encontrou quando descansavam sob uma viga inclinada.

Era um aglomerado humanoide, mas distorcido: carne cinzenta costurada a lâminas enferrujadas, braços que se multiplicavam em ângulos absurdos, cada mão com bocas no lugar dos dedos. Do ventre aberto saíam tubos negros, que sugavam e expeliam um líquido grosso que se espalhava pelo chão como sangue contaminado.

Ela não correu. Apenas os observou, inclinando a cabeça em espasmos violentos, até que um dos doze — desesperado — atacou com uma barra arrancada do chão.

A luta durou horas. Cada golpe rasgava a carne e a máquina ao mesmo tempo, mas a criatura se recomponha diante deles, como se fosse feita do próprio espaço que a envolvia. Quando finalmente se dissolveu em uma espuma escura, perceberam:

Nada morria em Ordiman.
Tudo apenas se transformava.

Depois vieram outras.
Aracnídeos de metal transparente, cujas vísceras eram visíveis, pulsando como corações múltiplos.
Entidades serpenteantes que se moviam pelas paredes, abrindo bocas verticais que se estendiam até o abdômen, cuspindo vozes humanas que não eram delas.
Massas sem forma que rastejavam pelo teto, gotejando fluido quente que queimava ao contato.

Mas o pior não era vê-las.
O pior era quando nada acontecia.

O silêncio entre os encontros era habitado por alucinações.
Memórias falsas eram projetadas diante de seus olhos: cidades que jamais existiram, famílias que não eram suas, línguas que não sabiam, mas compreendiam. Vozes familiares chamavam por eles dentro das paredes — e, às vezes, vinham acompanhadas de risos.

Na quarta estação, perderam os primeiros. Corredores se fecharam como mandíbulas atrás de dois membros do grupo, engolindo-os sem deixar vestígios. Nenhum grito, apenas o eco do metal comprimindo-se.

Os sobreviventes perceberam, com horror crescente, que a Ordiman não era apenas uma prisão. Era uma mente.
Cada passo, cada medo, cada reação era absorvida pelas paredes. O espaço se moldava ao terror deles, respondia a ele, gerava criaturas cada vez mais íntimas, mais próximas de suas memórias pessoais.

Um deles — Charn — jurava que sua mãe o acompanhava, andando atrás do grupo. Ela estava morta há décadas, mas sua voz, doce e arrastada, repetia sem parar:

“Você ainda não acordou, meu filho.
Aqui não é o fim.
Aqui é o começo.”

Ninguém ousava virar para conferir.
Porque, no fundo, todos sabiam que ver significaria enlouquecer.

Meses se passaram.
Doze se tornaram oito. Depois cinco.

O que restou deles já não era humano. Seus corpos não precisavam de alimento, mas sentiam fome. Não precisavam de água, mas eram consumidos pela sede. Seus espíritos eram puxados, moldados, dobrados a cada nova sala.

A Ordiman os devorava lentamente — não a carne, mas a mente.

E assim seguiram.
Caminhando por corredores vivos, lutando contra formas impossíveis, atravessando o ventre de uma consciência que não conhecia misericórdia.

No silêncio entre passos, todos sabiam:
Não havia Ethereanos, não havia Triquetosferianos.
A salvação jamais viria.

Havia apenas eles,
E a Ordiman.

E Ordiman continuava.
Sempre continuava.

-

A BIBLIOTECA DE PRAGA

Na velha cidade de Praga, cercada por torres góticas e ruas de pedra, vivia Marek Kovár, um homem de cinquenta e poucos anos, professor aposentado de filosofia. Era um homem metódico, conhecido pelos cafés que tomava sempre no mesmo horário e pelas longas caminhadas na ponte Carlos.

Mas, desde a morte da esposa, Marek havia se fechado. Passava quase todos os dias em sua casa estreita, próxima ao bairro judeu, rodeado por livros.

Os vizinhos diziam que a casa era silenciosa, mas, em noites específicas, viam luzes tremeluzindo nas janelas altas, como se velas ardessem por toda parte.

Numa tarde chuvosa, Marek encontrou um livro estranho em uma feira de antiguidades. A capa era de couro gasto, sem título. As páginas estavam cobertas de símbolos, linhas e palavras em línguas que ele reconhecia parcialmente: latim, grego, mas também algo que parecia inventado.

O vendedor, um senhor de olhar vazio, disse apenas:
— Esse livro encontrou você.

Marek levou-o para casa.

Com o tempo, tornou-se obcecado.
As páginas falavam de Cosma, de uma energia que sustentava todas as camadas da existência; da Triquetosfera, um espaço acima da realidade material; e da Psicosfera, uma zona mental coletiva onde todas as consciências se cruzavam.

Marek começou a copiar trechos em cadernos, tentando decifrar os símbolos. Rabiscava diagramas em folhas soltas, colava-os nas paredes do escritório. A cada madrugada, escrevia febrilmente, como se algo lhe ditasse as palavras.

— Há conhecimento hereditário escondido na mente de cada um — murmurava para si mesmo. — E esses livros são a chave.

Com o passar dos meses, mal comia, mal dormia. Seu rosto emagreceu, seus olhos ganharam um brilho febril.

Os vizinhos ouviram sons estranhos vindos da casa. Não eram músicas nem vozes comuns, mas vibrações graves, como se colunas de ferro ressoassem sob o chão.

Certa vez, uma vizinha jurou que viu Marek sentado em posição rígida no meio da sala, rodeado por pilhas de livros abertos. Seus olhos estavam entreabertos, mas brilhavam, refletindo uma luz que não vinha de lugar nenhum.

Numa manhã gelada de novembro, Marek Jakub não foi visto. A porta de casa estava destrancada.

Dentro, a cena parecia preparada para um fim.

Todas as estantes haviam sido esvaziadas, os livros dispostos em círculo pelo chão. No centro, um diagrama gigantesco pintado diretamente nas tábuas, com três palavras em letras grossas:

“COSMA – TRIQUETOSFERA – PSICOSFERA.”

Sobre a mesa, um único caderno estava aberto. Nele, a última anotação:

“Hoje à noite, a Egiosfera se dissolve.
Eles estão à espera.
Eu vou atravessar.”

Marek não estava.
Nem roupas, nem corpo, nem pegadas na neve ao redor da casa.

A polícia foi chamada. Reviraram a biblioteca inteira, catalogaram os livros. Nada explicava como um homem poderia simplesmente desaparecer dentro da própria casa.

Dias depois, um dos investigadores, sozinho no escritório, decidiu ler um dos livros apreendidos. Passou horas hipnotizado pelas palavras. Até que, num silêncio profundo, ouviu algo.

Um sussurro, vindo não do ar, mas de dentro de si:

“Nós estamos aqui.”

Os contos a seguir foram extraídos do livro Space Ordiman - Crônicas e Aventuras e adaptados para os HQs.